sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Recife das Sorveterias


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Recife das Sorveterias


As sorveterias do Recife, nos anos 50, eram bastante procuradas, sobretudo após as sessões dos cinemas São Luiz, Moderno, Art Palácio e Trianon. Infelizmente, os mesmos não mais funcionam. Nos feriados e aos domingos, além dos cinemas no centro da cidade, o pessoal tinha o costume de olhar as vitrines das principais lojas das ruas Nova, Imperatriz e Palma.
Segundo Mário Sette em seu livro “Arruar”, página 264: “ No século passado as pastelarias e sorveterias vulgarizavam-se no Recife. Sobretudo o sorvete, deliciosa novidade da época, quando o gelo ainda vinha de fora. As famílias iam-se acostumando a tomá-lo, embora em salas especiais com toda a decência.”
A sorveteria mais conhecida e procurada era a Gemba, que pertencia ao japonês Heiji Gemba, e funcionava, inicialmente, na Praça Joaquim Nabuco, perto do Cinema Moderno. Em meados da década de 40, com a declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo, a sorveteria foi maldosamente depredada, com grandes prejuízos para o japonês e para os outros comerciantes alemães e italianos, aqui estabelecidos, que não tinham nada a ver com a II Guerra Mundial (sic).
Na década de 50, a Gemba reabriu na Rua da Aurora, número 31, próxima ao Cinema São Luiz. Mas, já nos anos 60, com o início da decadência do movimento econômico-social da cidade, o então tradicional estabelecimento deixou de funcionar.
Outra sorveteria bem freqüentada era a Pérola, bem próxima, também, do então Cinema Moderno. Hoje com características diferentes funciona mais como bar, sob a direção de Hercolina Cortizo, filha do espanhol Soladino Cortizo Gonzaga.
“Deus uniu Dois Irmãos”, a frase inspirou os donos da Sorveteria Dudi, que funcionou durante os anos 50 ao lado da residência do Comandante da 7ª Região Militar, Parque 13 de Maio e da loja de Móveis que tinha representante no Nordeste das famosas camas “Patente”. Nos anos 60, a sorveteria deixou de funcionar.
A Sorveteria Botijinha funcionava na Rua Matias de Albuquerque, 146. Seu primeiro proprietário Carlos Pena, era pai do poeta Carlos Pena Filho. Foi um lugar frequentado por pessoas da elite recifense, isto é, até o início dos anos 60. Até recentemente, funcionava exclusivamente como bar, mas esse ano, foi totalmente fechado, permanecendo ali o “Fiteiro Cultural”, que era seu vizinho de número 145.

José Calvino




quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O ESTOJO

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Aconteceu numa manhã em que cheguei atrasada no trabalho, acontecimento raro, embora dependesse de ônibus e viesse de outra cidade. Quase corri pela avenida, mais rápida do que bala (mais perdida do que achada). Diante do edifício sede, diminuí os passos nas proximidades do portão de entrada. Se conseguisse driblar o vigilante, em breve, estaria diante do relógio de ponto, depois no elevador, depois...
Nem havia notado as pessoas que andavam em vai e vem pela calçada, muito menos aquela moça que estava parada no portão, segurando um vistoso embrulho. Ao ouvi-la gritar o meu nome, estaquei assustada.
Dificilmente esqueço uma fisionomia, apesar de tantas desfilarem à minha frente. Parecia aflita, tentei lembrar o seu nome, em vão.
Esqueci ser escrava de horário e trocamos um abraço. Sabia que fora minha aluna, mas, quando? Ela percebeu, ah, devo ser transparente. Sorriu compreensiva, disse-me o nome para tirar-me da aflição.
Sem esperar por resposta, depositou o pacote nos meus braços ocupados por pasta, bolsa e sacola a tiracolo não necessariamente nessa ordem, objetos obrigatórios de quem sai pra trabalhar por todo dia, às vezes, também uma parte da noite.
Antes de abrir o presente, agradeci, sem ligar para os conhecidos que antes de ultrapassar o portão nos lançavam olhares curiosos.
- É um estojo feito de casca de coco polida. Arte dos detentos do presídio de Itamaracá – explicou-me, sem deixar de sorrir – Foi o meu marido quem fez. Achei tão bonito, pensei logo na senhora. Gostou?
Senti os olhos úmidos, feliz e triste ao compreender a sua delicada situação, implícita nas palavras.
Tão jovem e mulher de bandido. Afastei os pensamentos ruins, elogiei bastante o presente e lancei a pergunta de praxe:
- E você, Maristela, está trabalhando?
Devolveu-me a pergunta com novo sorriso, que iluminou o seu rosto de quase menina:
- Ainda não, continuo procurando. Obrigada, professora.
E assim nos despedimos. Até hoje, guardo como relíquia o estojo que ela me deu, quase em troca de nada. Nenhum convite para voltar, nenhuma palavra de fé na recuperação do homem que se tornara o seu, apesar de cumprir pena no presídio de Itamaracá, onde aprendera a fazer objetos de arte com cascas de coco. Foi tudo tão rápido e inesperado...

Conceição Pazzola
Olinda, 8 de maio de 2007.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Planar



Planar
lucelena maia

Voar, voar, experimentar a juventude,
Fustigar cada segundo de liberdade...
Num engenhoso desafio de mocidade,
Ao abrir as asas, ignora a altitude.

Do alto, olha a vida, com ousadia,
Sente-se nuvem, sol, terra e ar;
Dona da natureza, soberana a reinar,
Sobrevoa o mundo, sua alforria.

Corajosamente, vôos rasantes, tenta,
Sem temor, em livre queda se lança,
E a vaidade jamais a atormenta.

Jovem águia, testando se conhecer,
Ousa ir aos confins da esperança...
Voar, voar, subir, subir, amadurecer...

(do livro - Põe-te de pé, poeta!)

Vela branca


VELA BRANCA

Vela branca a navegar
sobre a linha do horizonte,
visão branca a macular
azuis de planos distantes.

Entre ela e o meu olhar
um elo, hipérbole, ponte,
anseios de um transbordar
se estabelece em instantes,

rasgando a seda do ar,
líquido a jorrar da fonte,
gaivota bela a lembrar
projétil em vôo rasante.

Retorno ao meu caminhar
ante que o vento me aponte
outro caminho a singrar,
outros destinos adiante.

Clóvis Campêlo
Recife, 1992
-

sábado, 7 de novembro de 2009

Meu gozo


MEU GOZO

Vilma Abubua

Noite de lua cheia.
Rua em silêncio
E todos dormem...
No quarto,
A única luz é a do luar.
Entre lençóis,
Só gemidos e corpos nus.
Estou nua,
Pernas abertas
E você entre elas se posiciona.
Coloca-se na direção do meu sexo...
Sinto sua boce suave,
Macia.
Sua língua passeia por virilha,
Lábios maiores e menores,
Estou em delírio!...
Entregue,
Submissa,
Quente!
Afasto a pele,
Exponho-me mais,
E você sorve...
Ah... Sorve,
Chupa,
Suga,
Mordisca.
Ninguém nota,
Mas nesta rua silenciosa,
Neste quarto,
Nesta cama de lençóis de seda,
Mordo travesseiros
E lábios.
Grito,
Gemo,
Exponho-me cheia de prazer,
Paixão,
Deleite.
Ninguém nota.
Só você...
Só você vislumbra meu sexo carnudo,
Cheira meu aroma feminino,
Toca em minha umidade,
E prova do meu gozo.
Ninguém nota.
Mas arqueio meu corpo,
Grito em espasmos,
E gozo...
Meu maior deleite,
Meu maior prazer,
Meu melhor gozo.
Gozo
E tombo.

Fonte: Antologia Poética 2007 dos Poetas Independentes. Tânia França organizadora. - Recife: Ed. do Livro Rápido, 2007, pág. 133/134.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Fotos de antigamente




Fotos de antigamente

lucelena maia

São belos e simples, os retratos
Um marco do tempo distante
Simplicidade, belos traços
Pose recatada e elegante.

Um marco do tempo distante
Tempo conservador, austero
Pose recatada e elegante
Dentro de um estilo severo.

Tempo conservador, austero
Esbanjando cordialidade
Dentro de um estilo severo
Não brincavam com a lealdade.

Esbanjando cordialidade
As pessoas de antigamente
Não brincavam com a lealdade
Está na foto; olhe de frente!

As pessoas de antigamente
Valorizavam-se no trato
Está na foto; olhe de frente!
São belos e simples, os retratos.

Um pouco de história


UM POUCO DE HISTÓRIAS
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Clóvis Campêlo
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Não dizem que a poesia é filha da música? Pois é, amigos, a nossa existência confirma isso: o grupo Poetas Independentes nasceu a partir do grupo Música Sem Fronteira! Assim mesmo, sem mais e nem menos.
O grupo Música Sem Fronteira foi criado em fevereiro de 2006 pelo dileto amigo Lucivânio Jatobá. Convidado para dele participar, não me fiz de rogado. Lá, além de Jatobá, amigo que conheço há mais de 40 anos, tive o prazer de conhecer pessoas especiais e sensíveis, como José Inácio,Tânia França, Verônica Aroucha e Cristina Henriques (que nunca "migrou" para o PI, fidelíssima ao MSF).

Animado com o MSF, em março de 2006, resolvi criar o PI. Logo se chegaram as pessoas acima citadas, dando consistência, robustez e definindo o perfil do grupo.
Nas páginas dos jornais recifenses, descobri Conceição Pazzola, a nossa First Lady, José Calvino, o nosso Don Calvinito del Campo Grande, e Fernando Spanghero, o poeta dos ombros largos e o nosso bar man de eterno plantão.
Logo logo apareceram as meninas da Bahia: Martha Galrão, Sílvia Câmara e Liris Letieres. Martha, figura encantadora e magnética, eu descobri em um grupo, também virtual, chama Estudos Linguísticos e Literários. Eu a convidei para o PI, ela aceitou e com ela vieram Sílvia e Liris. Isso foi bom porque quebrou o estigma da pernambucanidade do grupo. Elas deram ao grupo um cheiro e uma coloração abaianados.
De Caruaru, de chapéu de couro, descendo a Serra das Russas, veio o poeta Demóstenes Felix, representando a nossa poesia agrestina.
Depois das baianas, foi a vez das gaúcha. Lá dos pampas do Rio Grande e de Moçambique, de bombachas e chimarrão, apostaram Olga Matos e Aline Machado.
Da minha queridíssima Turma do Pina, lugar que não mais existe mas insiste na minha imaginação pueril, vieram Bartolomeu Lima e Vilma Abubua, que andam sumidos, mas perfeitamente assumidos como integrantes do PI.
São Paulo nos brindou com Lucelena Maia, a poetisa da Mantiqueira, Kika, a nossa web designer preferida, e Dalva Lynch, já que mistério sempre há de pintar por aí. Apesar de serem mais recentes na história do grupo, sinto que estas vieram para ficar definitivamente.
Uma agradável chegada foi a de Luiz Guimarães, compositor pernambucano consagrado que virou poeta e nos brindou coma sua companhia ao longo desses anos. Luiz é uma figura impar e discretíssima, apesar de toda a sua bagagem musical.
Arimatéia Macedo, o poeta doutor, foi outra figura importante a se mostrar, chegar e ficar. Com ele, a nossa atenção foi desviada para o Tocantins, nos confins do Brasil Central.
Agora também temos Eron, recem chegado mas com um tremendo poder de barganha (só podia ser coisa de Tânia!).
Enfim, pelos laços que criamos ao longo dos anos, considero a todos muito mais do que simples companheiros de um grupo virtual. São amizades novas e consistentes que, tenho certeza, se estenderão ainda por muitos e muitos anos, poemas e antologias.
Enfim, para mim, esse sempre foi um grupo diferenciado pela sua capacidade de se reciclar, superar-se e estabelecer novos patamares de comunicação e criação poética.
Fico feliz com isso.

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Nefelibata


NEFELIBATA
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Olga Matos
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Pensativos os deuses discutiam
o gênero , o ritmo e a cor,
um nome , enfim, de farto brilho,
que descrevesse o místico amor.

Eros falou mais alto ,
sobre orgasmo , masculinidade,
feminilidade regados a gozo,
duvidoso sem decidir nada!

Afrodite , linda como sempre,
cadenciadamente , ia e vinha,
docemente, entre os deuses.

Encantado Hefesto falaria,
se Gaia deveras nefelibata e femínia,
não falasse : POESIA!

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maio/2003
-
Poesia

Escrevo nomes
como quem passa batom
e pinta de vermelho
a boca

talvez porque sofra
desse destino
de me balançar
em rede tão fina.

Escolho pernas
cruzo e descruzo palavras
prolongo sílabas e olhares

E porque quero dançar
procuro poesia
no céu da sua boca.

As palavras
doidas pra tecer mistérios...
Confundo lábios e letras.

Martha Galrão

Boemia do Recife


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Boemia do Recife


Antigamente (anos 50/60), a vida noturna era nos bordéis no bairro do Recife. Popularmente conhecida “Zona” (baixo meretrício). A palavra zona era por se tratar de zona portuária. Tinha as famosas “pensões”: Moulin Rouge, Chantecler, Astória, Lupanar da Miryan, Maria Magra, Silver Star, Adília, Califórnia, Bagdá, Atenas, Baiana, BBB (alguns chamavam ironicamente de BBC – British Broadcasting Corporation), numa das BBB havia na parede o néon em desenho de uma ponte simbolizando a cidade do Recife (pp 35, 40 e 41 do livro de minha autoria “O Pai do Chupa”). Os bares mais freqüentados na época: Duas Américas; OK; Gambrinus; Royal; Texas Bar; São Francisco; Astória; Bar 28; Scotch Bar (Atualmente sob a direção do poeta Fernando Spanghero. No seu tempo áureo era freqüentado por marinheiros de todas bandeiras, poetas, boêmios e damas da zona).
Como disse Gilberto Freyre: “ foi em meados do século passado que se acentuou sobre nós, sob a forma de atriz ou cômica de teatro, em geral italianas, espanholas ou francesas, a figura da prostituta de luxo.” Algumas polacas residiam em casas isoladas, outras em hotéis caros, passaram a rodar pelas ruas em luzidos carros de capota arriada, com cocheiro e lacaio, onde ostentavam vestidos, chapéus e sapatos da última moda. Acabaram, por esse modo, influindo sobre a maneira de trajar das mulheres honestas. (sic) Consuelo Uhles e Elvira Gueidas, mais mundanas que atrizes, estimularam ardor sexual de grupos rivais, com suas cançonetes, degenerando o espetáculo em canalhice(as senhoras de boa família que se cuidassem).
Mas nem tudo vinha da Europa, na Rua das Flores, entre as mulheres mais cobiçadas de suas pensões, havia Creusa, uma brasileira cheia de dengos. Chamavam-na de “Dama das Camélias”. Embora sem a carruagem e o luxo de Margarita, de Alexandre Dumas, pela sua graça, seu encanto e seus chamegos, era a preferida dos “estreantes” no amor.
Mas a boemia não tem apenas locais tem, principalmente, seus protagonistas. Quem já não ouviu falar de Hugo Gonçalves Ferreira, carinhosamente, Hugo da Peixa. Uma bela tarde, Hugo da Peixa acompanhado de duas mulheres, foi visitar um lugar freqüentado pelos figurões da cidade (Era visitado também por Ascenso Ferreira e Antônio Maria).
Chegando lá um imbecil disse: “ doutor Hugo, essas mulheres são suspeitas” – “ Não, são duas putas, suspeitas são essas que estão com vocês”, respondeu Hugo. Convém ressaltar que esses boêmios não faziam parte da onda de nouveau riche; não, muito pelo contrário, todos foram de boa origem, Hugo, por exemplo, é oriundo da alta aristocracia canavieira, filho de usineiro. Hugo seria o boêmio total criativo de índole pacífica, bonachão, solidário, um bon vivant. Na atmosfera social em que viveu, severa, terrível, inquisitiva, ele, desleado de todo convencionalismo, deixava-se ficar airosamente, horas a fio degustando sua Teutônia, cerveja bem geladinha, na calçada, bem às vistas, no então Maxime’s, no Pina. Certa feita, foi terminar uma farra em Salvador (Bahia), uns seis acompanhantes, todos por sua conta, hospedagem, comida, bebidas, mulheres... dinheiro; naturalmente, no melhor da festa faltou-lhe numerário, incontinenti, vendeu o Packard de luxo e despachou o motorista para o Recife, pegando mais dinheiro e outro carro. Hugo herdou duas usinas que foram consumidas por suas farras perdulárias. Dizem que nas suas contas os garçons incluíam até a data, mesmo recebendo régias gorjetas. Assim era o Recife de antigamente.

José Calvino