quinta-feira, 19 de novembro de 2009

poesia bruta




Angélica T. Almstadter

18-11-09

esse oco que me apavora
retém os olhos nas oscilações
me procuro e só encontro indagações
que aos poucos me devora

engasgo com a rima mal feita
perdi as palavras no vão da porta
e suspiro por uma ou outra morta
nenhuma me é hoje a eleita

ainda no espelho me procuro
do estanho só vejo a transparência
que acusa de mim, eterna ausência
poesia latente em estado bruto
sufocada em revelações marginais
morro nos meus verbos mais abissais

A IMPORTÂNCIA DO PÓS-VENDA

Publicado em Opinião do Dário de Pernambuco
19 11 2009

Acreditamos que poucas empresas dão o devido valor a um item importante no setor do comércio: o pós-venda, Quem de nós não amargurou alguma vez sérios transtornos após a aquisição de um bem durável?Mesmo com os avanços ocorridos nos direitos do consumidor estamos ainda longe da tranquilidade que deveríamos ter como cidadãos. Quando o cliente assina aqueles contratos de difícil leitura, não pelo texto em si, mas, pela letra diminuta que é escrito, a empresa que nos vende o produto tem assegurada todas as garantias imagináveis em qualquer negócio de compra e venda.Porém, o consumidor inadvertido não se apercebe de que ali contém, também, direitos para ele a serem respeitados pela outra parte. Contudo, as empresas da indústria e comércio não observam as vantagens do pós-venda onde poderiam antecipar-se vezes a questionamentos do comprador, o que seria uma visão proativa no contexto. Angariar a simpatia do cliente não somente na primeira compra, masfazendo com que ele tenha fidelidade a marca ou produto, faz parte de uma estratégia de marketing com retorno a médio e longo prazo.Satisfeito com a compra, certamente ele será um multiplicador a custo zero para a firma vendedora. É preciso ter em mente que nos dias de hoje qualidade é uma exigência para qualquer consumidor e isso também está inserido na forma do atendimento e na pesquisa de satisfação após a compra. Certa vez, após a revisão do carro em uma concessionária, decorridos poucos dias recebi ligação para que eu informasse se estava satisfeito com os trabalhos realizados e se meus questionamentos foram atendidos. Ora, isso e lembrar do consumidor mesmo depois dos lucros auferidos após a compra ou serviço prestado, ou seja, é valorizar o cliente já que ele é o elemento primordial para que a empresa se mantenha ativa e próspera. Dificilmente em conversa com amigos ouvimos elogios para empresas, prestadoras de serviços. Regra geral sentimos o grau de insatisfação nos consumidores. Há, inclusive, aquelas que lideram o ranking de reclamações, onde praticamente existe uma unanimidade nos comentários. Aquelas que chegam a esse ponto, certamente estarão fadadas ao insucesso total e perda do mercado hoje tão competitivo. Exemplo dos mais expressivos encontramos no campo da telefonia. Sem sombra de duvidas, essas empresas lideram o grau de insatisfação dos clientes que chegam a casa de milhões. A começar pelo enfadonho e irritante atendimento eletrônico, que nos deixa ainda mais insatisfeitos e muitas vezes após uma ligação demorada a linha cai, levando-nos a começar tudo. Nada obstante a portabilidade ser um avanço valoroso, onde as prestadoras de serviços deveriam redobrar seus esforços para a conquista de novos clientes, isso não acontece, pois, preferem reduzir custos e essa economia será transformada em futuro breve em prejuízo, pelo atendimento precário disponibilizado. Assim, a importância do cliente quando da sua primeira compra deveria tornar-se o alvo maior dos esforços das empresas para que ele retorne não para reclamar, mas, para novas compras. Acredito que seja esse o principal papel do pós-venda.Temos, contudo, uma exceção. No caso das funerárias, o esforço para avaliar o grau de satisfação do cliente fica dispensado..

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Para meu pai

Para meu Pai.

Ele me ensinou
A molhar o corpo aos poucos,
Primeiro os braços,
Depois as pernas,
E por último a cabeça.
Para eu me acostumar
Quando a água estava muito fria
E não tínhamos chuveiro elétrico.

Ele me ensinou
O nome das árvores
E de todos os pássaros
Que existiam na granja,
Mas eu já esqueci
Todos eles
Em meus voos insanos
E caóticos
Por dentro de mim mesmo
E da noite.

Ele me ensinou a poupar
Mas eu também
Já me esqueci há muito tempo
Na minha ânsia
De viver toda a minha vida
Num segundo.

Mas ele me ensinou
Muitas coisas
Que ficaram guardadas como
Pérolas de grande valor
Em compartimentos secretos
Do meu coração:
Honestidade, ética,
Trabalho, perseverança!

Carlos Maia
16/11/09.

domingo, 15 de novembro de 2009

Flanar pela rua


Flanar pela rua
Vaguear caminhos e o pensamento
A deriva da própria vida a flutuar
Na existência e suas inconstâncias

Sob leve brisa vadiar
Na hora que o sol foge,
Prender a tarde na sola dos pés
Cruzar tempo, espaço e vento

Paredes baldias, vitrines, portas de aço, casas
A paisagem de concreto, espessa textura
Que reverbera calada, seus neons incandescentes
E a canícula sofrida.

Vozes atravessam a calçada,
Bêbados mendigos crianças, limitam
O ir e vir dos burgueses apressados
Espantados e enojados dos invisíveis citadinos

Ônibus escorrem, tomados de modorra
Carroças puxadas a homens
Motocicletas e peruas,
Algumas em movimento

Numa praça flanelinhas inebriados
Aguardam o final do litúrgico oficio
Para ganhar o real

Sombreada nas torres da igreja
A banca de velhas revistas e jornais
Guarda o tuberculoso esquálido a praguejar

O poeta ébrio beija a boca da noite
Sorve estrelas, enlouquecido
Impreca contra passantes que teimam instigá-lo

Enquanto homogays heteroguys safistas
Feito bibelôs coloridos
Fazem algazarras e riem-se,


Prostitutas alegres velhos assanhados
Trocam olhares lúbricos mútuos
À sombra do centro de cultura

No meio-fio, lauto banquete de carcaças podres
sobras de alimentos servidas em sacos de lixo,
nutrem a fome de crianças verminosas
velhos decrépitos mendigos loucos e bêbados

Praças poetas bêbados flanelinhas
velhos homos lesbios putas e loucos
Crianças verminadas e michês,
Estão invisíveis na cidade cega

Não refresca a alma
Não há espairecer
Observar o lado invisível da cidade
Nem há como

Falsear o céu no chão a vadiar
Ir por outros ares a imaginar
Verdes prados caminhos retos fontes refrescantes
Borboletas plantas pássaros insetos

Impossível no passeio divagar
flanar e não enxergar, a invisível dor
Mesmo que a tentação obrigue,
dispor os pés descalços no chão

À beira da noite que vem baixando,
Ousar-se livre como um pássaro *
É apenas crônica delusão
No campo de morangos **

Onde nada é real, **
para a elite do andar de cima
Presa entre condominios e shoppings
Viver de olhos fechados é mais fácil**


Vilemar F. Costa
* Free as a bird : Lennon – MacCartney - Ringo

** Strawberry fields forever : Lennon - McCartney

Fêmea


FÊMEA
-
Vilma Abubua
-
Uma só alma
Muitas vidas.
Um olhar
Muitos mistérios.
Uma só mulher
Muitas faces e fases...
Muitos sonhos
Um corpo
Duas mãos
Dez garras
Dois pés
Duas asas
Mil instintos
Quatro patas.
-
Antologia Poética 2007 dos Poetas Independentes. Tânia França organizadora - Recife: Ed. do Livro Rápido, pág. 135.
-

C A M I N H A R


DESTINOS TRAÇAMOS
PARTIMOS, ANDAMOS
SEM NOS PERCEBER
CHEGAMOS ENFIM,

SE QUER PERGUNTAMOS
POR ESSES CAMINHOS
QUE AINDA FAREMOS
NA TRILHA ESCOLHIDA...

DISPERSOS NO TEMPO
O TEMPO QUE PASSA,
NÃO OLHA PRA TRÁS
NEM VÊ QUE PASSAMOS

NA ESPERA TÃO LONGA
JAMAIS NOS CANSAMOS,
O DIA QUE FINDA
É MERA ILUSÃO...

NÃO TARD´AURORA
DO AMANHECER,
COM TANTOS CAMINHOS
PARA PERCORRER...

REGRESSO NÃO HÁ
OUTRORA FICOU,
NO PASSO DA VIDA
QUE UM DIA SE FINDA...


11 11 2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Recife das Sorveterias


Imagem google
Recife das Sorveterias


As sorveterias do Recife, nos anos 50, eram bastante procuradas, sobretudo após as sessões dos cinemas São Luiz, Moderno, Art Palácio e Trianon. Infelizmente, os mesmos não mais funcionam. Nos feriados e aos domingos, além dos cinemas no centro da cidade, o pessoal tinha o costume de olhar as vitrines das principais lojas das ruas Nova, Imperatriz e Palma.
Segundo Mário Sette em seu livro “Arruar”, página 264: “ No século passado as pastelarias e sorveterias vulgarizavam-se no Recife. Sobretudo o sorvete, deliciosa novidade da época, quando o gelo ainda vinha de fora. As famílias iam-se acostumando a tomá-lo, embora em salas especiais com toda a decência.”
A sorveteria mais conhecida e procurada era a Gemba, que pertencia ao japonês Heiji Gemba, e funcionava, inicialmente, na Praça Joaquim Nabuco, perto do Cinema Moderno. Em meados da década de 40, com a declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo, a sorveteria foi maldosamente depredada, com grandes prejuízos para o japonês e para os outros comerciantes alemães e italianos, aqui estabelecidos, que não tinham nada a ver com a II Guerra Mundial (sic).
Na década de 50, a Gemba reabriu na Rua da Aurora, número 31, próxima ao Cinema São Luiz. Mas, já nos anos 60, com o início da decadência do movimento econômico-social da cidade, o então tradicional estabelecimento deixou de funcionar.
Outra sorveteria bem freqüentada era a Pérola, bem próxima, também, do então Cinema Moderno. Hoje com características diferentes funciona mais como bar, sob a direção de Hercolina Cortizo, filha do espanhol Soladino Cortizo Gonzaga.
“Deus uniu Dois Irmãos”, a frase inspirou os donos da Sorveteria Dudi, que funcionou durante os anos 50 ao lado da residência do Comandante da 7ª Região Militar, Parque 13 de Maio e da loja de Móveis que tinha representante no Nordeste das famosas camas “Patente”. Nos anos 60, a sorveteria deixou de funcionar.
A Sorveteria Botijinha funcionava na Rua Matias de Albuquerque, 146. Seu primeiro proprietário Carlos Pena, era pai do poeta Carlos Pena Filho. Foi um lugar frequentado por pessoas da elite recifense, isto é, até o início dos anos 60. Até recentemente, funcionava exclusivamente como bar, mas esse ano, foi totalmente fechado, permanecendo ali o “Fiteiro Cultural”, que era seu vizinho de número 145.

José Calvino



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O ESTOJO

Imagem google






Aconteceu numa manhã em que cheguei atrasada no trabalho, acontecimento raro, embora dependesse de ônibus e viesse de outra cidade. Quase corri pela avenida, mais rápida do que bala (mais perdida do que achada). Diante do edifício sede, diminuí os passos nas proximidades do portão de entrada. Se conseguisse driblar o vigilante, em breve, estaria diante do relógio de ponto, depois no elevador, depois...
Nem havia notado as pessoas que andavam em vai e vem pela calçada, muito menos aquela moça que estava parada no portão, segurando um vistoso embrulho. Ao ouvi-la gritar o meu nome, estaquei assustada.
Dificilmente esqueço uma fisionomia, apesar de tantas desfilarem à minha frente. Parecia aflita, tentei lembrar o seu nome, em vão.
Esqueci ser escrava de horário e trocamos um abraço. Sabia que fora minha aluna, mas, quando? Ela percebeu, ah, devo ser transparente. Sorriu compreensiva, disse-me o nome para tirar-me da aflição.
Sem esperar por resposta, depositou o pacote nos meus braços ocupados por pasta, bolsa e sacola a tiracolo não necessariamente nessa ordem, objetos obrigatórios de quem sai pra trabalhar por todo dia, às vezes, também uma parte da noite.
Antes de abrir o presente, agradeci, sem ligar para os conhecidos que antes de ultrapassar o portão nos lançavam olhares curiosos.
- É um estojo feito de casca de coco polida. Arte dos detentos do presídio de Itamaracá – explicou-me, sem deixar de sorrir – Foi o meu marido quem fez. Achei tão bonito, pensei logo na senhora. Gostou?
Senti os olhos úmidos, feliz e triste ao compreender a sua delicada situação, implícita nas palavras.
Tão jovem e mulher de bandido. Afastei os pensamentos ruins, elogiei bastante o presente e lancei a pergunta de praxe:
- E você, Maristela, está trabalhando?
Devolveu-me a pergunta com novo sorriso, que iluminou o seu rosto de quase menina:
- Ainda não, continuo procurando. Obrigada, professora.
E assim nos despedimos. Até hoje, guardo como relíquia o estojo que ela me deu, quase em troca de nada. Nenhum convite para voltar, nenhuma palavra de fé na recuperação do homem que se tornara o seu, apesar de cumprir pena no presídio de Itamaracá, onde aprendera a fazer objetos de arte com cascas de coco. Foi tudo tão rápido e inesperado...

Conceição Pazzola
Olinda, 8 de maio de 2007.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Planar



Planar
lucelena maia

Voar, voar, experimentar a juventude,
Fustigar cada segundo de liberdade...
Num engenhoso desafio de mocidade,
Ao abrir as asas, ignora a altitude.

Do alto, olha a vida, com ousadia,
Sente-se nuvem, sol, terra e ar;
Dona da natureza, soberana a reinar,
Sobrevoa o mundo, sua alforria.

Corajosamente, vôos rasantes, tenta,
Sem temor, em livre queda se lança,
E a vaidade jamais a atormenta.

Jovem águia, testando se conhecer,
Ousa ir aos confins da esperança...
Voar, voar, subir, subir, amadurecer...

(do livro - Põe-te de pé, poeta!)

Vela branca


VELA BRANCA

Vela branca a navegar
sobre a linha do horizonte,
visão branca a macular
azuis de planos distantes.

Entre ela e o meu olhar
um elo, hipérbole, ponte,
anseios de um transbordar
se estabelece em instantes,

rasgando a seda do ar,
líquido a jorrar da fonte,
gaivota bela a lembrar
projétil em vôo rasante.

Retorno ao meu caminhar
ante que o vento me aponte
outro caminho a singrar,
outros destinos adiante.

Clóvis Campêlo
Recife, 1992
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